E serei um verdadeiro galego?


O artigo E serei um verdadeiro galego? foi publicado originalmente no Praza Pública em 7 de junho de 2016. Foi posteriormente editado em papel no livro Remédios para o galego da Através Editora.


Sou galego. Vaia, polo menos isso penso. Mas nunca sachei nas patacas. Nunca bebim leite diretamente do teto dumha vaca. Nunca assistim à matança dum porco. Nom sei quando é o tempo de botar o sulfato às vinhas. Nom sei reconhecer um salgueiro se o vejo. Nom sei qual é a diferença entre umha centola e um boi. Nom gosto de castanhas. A única vaca-loura que vim na vida foi a Carmiña Vacaloura do Xabarín Club. Nom me fam graça os chistes de mover marcos. Nom sei calcular capacidades em olas e moios. Sei o que é um estadulho como conceito, mas nunca vim um ao vivo. Nom sou capaz de ouvir umha gaita tocar mais de 30 segundos seguidos. Só caguei de monte umha vez, e foi umha das experiências mais embaraçosas da minha vida. Será, entom, que nom sou um verdadeiro galego?

O problema aqui é que se estám a confundir duas cousas diferente, o ser galega com ser de aldeia. A galeguidade com a ruralidade. E isto acontece tanto na gente galegofóbica, com contos como ¡Ay! ¡El gallego es para hablarle a las vacas!, como na gente que, com toda a boa vontade, tenta defender a identidade galega. Por exemplo, há tempo vim umha iniciativa que tentava promover a nossa língua no mundo da moda. Como? Pois animando a rapaziada a enviar fotos levando boina. E que terá que ver o falar galego com levar boina? É que só fala galego a gente que tradicionalmente leva boina, isto é, a gente da aldeia? É que polo mundo adiante nom levam boina?

E olho, o ruralismo merece todo o meu respeito. Devemos cuidar o rural galego, evitar o seu despovoamento e promovê-lo como a fonte de riqueza que é. Mas nom nos confundamos. Se associamos a identidade galega ao mundo rural, estamos a desprezar umha grande quantidade de gente. Estamos a excluir da galeguidade o sector da populaçom que, precisamente, mais precisa ser galeguizado.

É preciso mostrar que a cidade é tam galega como a aldeia. Que rifar com o vizinho de cima porque tem a música alta é tam galego como rifar com a vizinha da veiga do lado porque moveu o marco. Que o punk dos Terbutalina é tam galego como a gaita de Carlos Núñez. Que um computador é tam galego como um carro de bois, e também tem muitas partes com nomes mui galegos. Que ir ao cinema ver filmes do país é tam galego como ouvir histórias ao pé da lareira. Que jogar aos videojogos é tam galego como fazê-lo à mariola ou às agachadas, e oxalá houvesse muitos mais videojogos na nossa língua. Que levar um traje tradicional é tam galego como levar umha camiseta de Nikis Galicia Style ou do Rei Zentolo.

Necessitamos umha galeguidade que integre, ao mesmo nível, as diferentes formas de ser galega. No caso contrário, em pouco tempo, nom haverá galeguidade nengumha.