Júlia e Júlio


O artigo Júlia e Júlio foi publicado originalmente no blogue Indo Amil em 30 de outubro de 2012.


Há muitos anos, não mui longe daqui, viviam Júlio e Júlia. Como eram ainda umas crianças, viviam alheios às preocupações próprias dos adultos. Passavam as tardes a brincar juntos no parque sempre que podiam, apesar de que a mamã da Júlia quase nunca a deixava sair.

Júlia era uma meninha mui linda e alegre, que sempre ia com um vestidinho rosa e o seu perene gorrinho a jogo. Nunca saía da casa sem a sua boneca de trapo, uma destas que por cabelo tem uns fios grossos de lã, no caso de cor vermelha. O vestido da boneca estava já um pouco esfarrapado de tanto brincar com ela, mas à Júlia tanto lhe tinha, era o seu brinquedo favorito.

Um dia no parque, a Júlia estava a brincar com o Júlio aos papás e as mamãs. O Júlio não entendia como a boneca, que representava a sua filha, podia ter o cabelo vermelho.

— As filhas assemelham-se ao papá ou à mamã, e eu tenho o cabelo castanho escuro — replicou ele —. O teu de que cor é?
— Não me lembro… pode que mesmo seja vermelho, como o da boneca.
— Está bem — reflexionou o Júlio —, terei que aceitá-la como filha…

Enquanto brincavam, o braço da boneca enganchou no valado que cerca o parque e desgarrou-se do corpo. Ao ouvir o ruído de teia rachando, a Júlia não se atreveu a olhar a boneca. O Júlio deu meia volta e marchou a correr sem dizer nem chio. Sem entender nada, a Júlia rompeu a chorar, até que uns minutos mais tarde regressou o Júlio com um agrafador na mão e atitude decidida.

Com mais vontade do que habilidade, o Júlio agrafou o braço de novo ao corpo. Ao ver a heroica façanha, a Júlia recompensou-o com um beijo na bochecha, para ruborização do coitado do Júlio. Nesse dia viu claro o futuro, seria médico e arranjaria todos os problemas do mundo, ao cabo non era tão difícil. Chegava com um agrafador.

Uns dias mais tarde o Júlio sentiu a sirena duma ambulância na rua, e baixou correndo com um caderno e um lápis para anotar todo o que faziam os médicos. Assim aprenderia tudo sobre a Medicina. Ao chegar ao pé da ambulância, viu como levavam a Júlia para dentro numa maca ao tempo que a mamã dela chorava. Foi correndo para perguntar-lhe que é o que estava a acontecer.

— Sabes que a Júlia estava doentinha — dixo a mamã — e por isso não pode ir ao parque todos os dias.
— Sei.
— Bem, pois como hoje se sentia um pouco pior que o normal, os médicos vão-na levar ao hospital para lhe dar umas mencinhas mais fortes.

O Júlio olhou para ela com um sorriso de satisfação e marchou à pressa. Quando regressou, com a língua de fora de tanto correr, a ambulância estava já para arrancar. Júlio bateu na porta do condutor, que baixou a janela para ver que queria.

— Tem — dixo triunfante tendendo-lhe um agrafador —, se as mencinhas do hospital não funcionam, curai a Júlia com isto. Nunca falha.

A partir desse dia, o Júlio passava as tardes a aguardar pola ambulância na porta da casa da Júlia. Todas as tardes, sem faltar uma, ficava sentado nas escadas vendo os carros passar, tentando distinguir entre eles a ambulância que traria a sua amiga de volta. Mas o veículo que finalmente parou diante da casa foi outro diferente. Era um camião grande onde uns homens metiam os móveis que sacavam da casa. Entre eles, reconheceu o papá da Júlia, e foi correndo onde ele.

— Por que levam todas as cousas da vossa casa?
— É que já não vivemos mais aqui — respondeu o papá —. Sinto-o, campeão, mas já não vás poder brincar com a Júlia.

O Júlio resignou-se e começou a caminhar, mas ao dar uma última olhada ao camião reconheceu uns fios de lã vermelhos que sobressaiam duma caixa.

— Perdoa, papá da Júlia — dixo o Júlio inquisitivo —, a Júlia nunca vai a nengures sem a sua boneca. Que fai aí metida numa caixa.
— Tens razão. — Sentenciou o papá — Mas a Júlia já não pode ter conta dela no lugar onde vive agora. Tem, cuida-a tu, que seguro que o farás bem.


No dia de hoje, o Júlio tem o cabelo já mais branco do que castanho, e sabe bem que os agrafos não curam milagrosamente. Porém, no estante da sua consulta do hospital, entre o atlas de Anatomia e o tratado de Medicina Interna, uma boneca esfarrapada com um braço sujeito com agrafos lembra-lhe todos os dias o valor da vida.